NOVELA: A DOENÇA DA NAÇÃO



Não quero convencer ninguém mas, se me perguntarem porque não há eleições diretas para Presidência há mais de um quarto de século eu responderei (acreditem se quiser) que há pouco menos do que isso o imaginário nacional foi ocupado por uma manipulação de natureza escatológica, muito mais do que escapismo ou válvula de escape, é alienação 100% embrutecedora, chamada novela. Não é arte, diga-se de passagem, aqui não vai nenhum preconceito contra uma fórmula (não há forma) de dominação mental de 120 milhões de humilhados pela gratuidade descartável do universo baixo entretenimento; a fórmula deriva do folhetim, um gênero igualmente periódico, alimentador de sonhos e pesadelos descartáveis, mas com uma incomparável qualidade artística e estilística que a telenovela, infelizmente, não tem... Se tivesse alguma qualidade de informação artística ou cultural, com seu quarto de século de insistência redundante, já teria apresentado. Afora o comportamento (freqüentemente falso, deformado e classista) a novela nada tem a ver com arte ou cultura.

(...)

A cada dia e noite milhões de brasileiros são ludibriados pela gratuidade ostensiva de cenários alheios à encenação, em que a desejável ação interior é substituída pela multiplicação de coadjuvantes que só servem para encher lingüiça ou – suprema descoberta da "modernidade" mais irritante... – o império pouco criativo e previsível do "merchandising" abusivo. Da arte moderna, os clichês; dos efeitos cinematográficos, os defeitos televisivos; da liberação de costumes, a coisificação mercadológica. A fórmula antimágica da novela brasileira só retira e expropria, confisca o público, oprimido pelo custo de vida, sem pão nem circo (mal servido pelo cinema, traído pelo futebol, bombardeado pelo rádio) não tem muitas opções senão suportar o discurso, resistindo à saturação pelo esquecimento de sua criatividade, negada há decadas nas urnas, câmeras e microfones.

O povo brasileiro, tradicionalmente espontâneo e inventivo, se esquece de sua famosa intuição, bossa, sexto sentido através do quê? A novela é um dos mais destacados capítulos da história do desespero alienado de um povo humilhado pela infeliz marcha dos acontecimentos...

Bate-bocas e têtes a tete (reuniões) que só levam à galinhagem pura e simples.

Resultado: a classe média sobrevive sob a síndrome da passarela.

A população não quer ver, nem ouvir com olhos e ouvidos livres, mas tão somente ser vista, aparecer, fazer fama para deitar na cama do sub-sucesso fácil, talvez virar sub-super-star de uma hora para outra, trair sua condição colonial, enganando aos outros e, pior de tudo, a si mesmo. O brasileiro não quer ver mas ser visto. Nem escolher mas ser escolhido pelo sistema babilônico...

Macaquear é preciso... Estão aí os videotismos, cacoetes e maneirismos.

Passar a perna, levar vantagem, tirar proveito próprio explicam mais a nação ocupada pela má-consciência do que o complexo de culpa e a culpabilidade colonial de autores (às vezes competentes, em luta contra o aparelho repressivo no interior da produção/distribuição do sub-produto pasteurizado, censura igualmente primária).

O videotismo é total. Isso sem falar no provincianismo, redundância, ausência de expressão e dicção, mediocrização do ser humano, cretinização da opinião pública, desacerto dos cortes entre uma seqüência e outra, imposição de bandas sonoras importadas de péssima qualidade, mitificação da mediocridade, abuso de autoridade e desrespeito ao próximo, nível ginasiano da representação...

Não falaremos dos comerciais porque aí o panorama é ainda mais desolador.


Rogério Sganzerla, maio de 1988.

Clique aqui e assista a um trecho do filme Copacabana Mon Amour, de Rogério Sganzerla.

Clique aqui e leia na íntegra o texto do qual foi retirado o trecho acima.
Clique aqui e leia outros textos de e sobre Sganzerla.



ANTONIO CARLOS & JOCAFI - MUDEI DE IDÉIA - 1971
http://www.4shared.com/file/108683101/7228a7a7/A_C__J_-_Mi_De_Ideia.html

2 Comments:

At 20 de março de 2007 15:59, Anonymous glaucia said...

telenovelas...
que é uma bosta não se nega, engraçado é nem quem assiste nega; agora "encher linguiça" não é propriamente a linha editorial!
É um condicionamento de postura geral, de como agir perante a sutuações cotidianas, a sociedade sendo mostrada pra ser assim copiada..
Tudo muito planejado...
Linguiça Braba!!!

 
At 16 de maio de 2007 05:50, Anonymous zé do chinelo said...

eu já assisti novela, talvez três ou quatro... era um momento da minha vida em que eu assistia muita televisão (12-13anos) e acabava acompanhando, sem muita reguaridade, a trama de algumas novelas... confesso que gostava do tipo de erotismo e sensualidade de algumas atrizes e acabava me interessando pelo destino delas na novela... até hoje me lembro quando uma morena gatíssima, que agora não lembro o nome, morreu esfaqueada pelo cara que contracenava com ela na novela... quando essa notícia apareceu, eu confundi, num primeiro momento, jornalismo e novela... bom, é sobre isso que eu quero falar, o grande problema da novela é que muitas pessoas a encaram como notícias de jornal sobre a vida íntima de algumas pessoas... é a pura ingenuidade cretina dos "telespectadores" o que confere todo poder ao discurso novelesco como uma "janela para a realidade", e tudo se confunde com o jornalismo de péssima qualidade da grande mídia burguesa... a novela é um sintoma da grotesca alienação da sociedade capitalista; os valores, as imagens, as relações de classe, os conflitos, o enredo, os signos de "nacionalidade", não há nada que apresente uma visão crítica ou uma pesquisa profunda sobre o que é a heterogênea situação do povo brasileiro... a novela é sintoma patológico da elevada alienação que existe entre nós, da burrice atávica que o sistema de ensino perpetua, das ilusões toscas de uma nação miserável deformada pelos processos colonialistas...
a novela, se possui algum efeito psicológico mensurável, induz a um conformismo político perigoso, a uma visão de brasil marcada pelo olhar perverso das elites, e isso não é pouca coisa num povo que de certa forma perdeu suas antigas tradições num processo violento de aculturação e não adentrou nas complexidades filosóficas da cultura letrada.... vista como um fenômeno pedagógico, que pretenderia informar sobre a "realidade brasleira" em seu nível imaginário, a novela, enquanto estrutura de linguagem marcada pelo mesmo conservadorismo e limitações do telejornalismo, nada mais faz do que expandir, em rede nacional, uma visão de mundo e um imaginário fascista, imbecil, colonizador, típico das oligarquias fedorentas que financiam a produção e reprodução do capital.......

 

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